sábado, 15 de setembro de 2012

O Pavão

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Bebida

É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom ,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa.

domingo, 2 de setembro de 2012

Artistas têm que ganhar dinheiro?

Nós precisamos ser espertos nesses assuntos. É preciso lembrar que há míseros cem anos, e olhe lá, os artistas trabalham com dinheiro. Artistas nunca tiveram dinheiro. Artistas tinham um patrono, seja ele o líder do estado ou o duque de algum lugar, ou a igreja, ou o papa. Ou eles tinham outro emprego. Eu tenho outro emprego. Eu faço filmes. Ninguém me diz o que eu tenho que fazer. Mas eu faço meu dinheiro na indústria do vinho. É ter um outro emprego e acordar às cinco da manhã para escrever seu roteiro. Essa ideia de que o Metallica ou qualquer outro cantor de rock tem de ser rico é algo que não necessariamente vai acontecer daqui para frente. Porque, como estamos entrando em uma nova era, talvez a arte seja gratuita. Talvez os estudantes estejam certos. Eles devem ter o direito de baixar músicas e filmes. Eu vou levar um tiro por dizer isso. Mas quem disse que a arte custa dinheiro? E, portanto, quem disse que os artistas têm que ganhar dinheiro? Nos velhos tempos, há 200 anos, se você fosse um compositor, o único jeito de ganhar dinheiro era viajando com a orquestra e sendo o condutor, para assim ser pago como um músico. Não havia registros. Não existiam royalties de registros. Então eu diria: “tente desconectar a ideia de cinema com a ideia de ganhar a vida e dinheiro”. Porque há soluções ao redor disso.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobrevivente

É estranho como os nomes superam os donos, o significante supera o significado, o símbolo supera o simbolizado.

O Enforcamento

É curioso, mas até aquele momento eu jamais me dera conta do que significava matar um homem saudável e consciente. Quando vi o prisioneiro pisar de lado para desviar da poça d'água, percebi o mistério, a injustiça execrável de interromper uma vida no auge. Aquele homem não estava agonizando, estava tão vivo quanto nós.
[...] Ele e nós éramos um grupo de homens caminhando juntos, vendo, ouvindo, sentindo, percebendo o mesmo mundo; e em dois minutos, com um estalo súbito, um de nós partiria --uma mente a menos, um mundo a menos.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

I love everybody

I love people. Everybody. I love them, I think, as a stamp collector loves his collection. Every story, every incident, every bit of conversation is raw material for me. My love’s not impersonal yet not wholly subjective either. I would like to be everyone, a cripple, a dying man, a whore, and then come back to write about my thoughts, my emotions, as that person.* But I am not omniscient. I have to live my life, and it is the only one I’ll ever have. And you cannot regard your own life with objective curiosity all the time…

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Meu verso é minha consolação. Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça. Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

domingo, 1 de abril de 2012

Famílias Terrivelmente Felizes

E eu pensando na solidão dos escritores. E, por que não, na dos cientistas, músicos e pintores. Talvez mesmo um arquiteto, debruçado em sua prancheta, alinhando retas, ordenando paralelas, seja um cara sozinho naquele momento. Enfim, o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Top 10 Relationship Words Not Translatable into English

Compiled by Pamela Haag at BigThink:

Mamihlapinatapei (Yagan, an indigenous language of Tierra del Fuego): The wordless yet meaningful look shared by two people who desire to initiate something, but are both reluctant to start.
Oh yes, this is an exquisite word, compressing a thrilling and scary relationship moment. It’s that delicious, cusp-y moment of imminent seduction. Neither of you has mustered the courage to make a move, yet. Hands haven’t been placed on knees; you’ve not kissed. But you’ve both conveyed enough to know that it will happen soon… very soon.

Yuanfen (Chinese): A relationship by fate or destiny. This is a complex concept. It draws on principles of predetermination in Chinese culture, which dictate relationships, encounters and affinities, mostly among lovers and friends.From what I glean, in common usage yuanfen means the “binding force” that links two people together in any relationship.
But interestingly, “fate” isn’t the same thing as “destiny.” Even if lovers are fated to find each other they may not end up together. The proverb, “have fate without destiny,” describes couples who meet, but who don’t stay together, for whatever reason. It’s interesting, to distinguish in love between the fated and the destined. Romantic comedies, of course, confound the two.
Cafuné (Brazilian Portuguese): The act of tenderly running your fingers through someone’s hair.

Retrouvailles (French): The happiness of meeting again after a long time. This is such a basic concept, and so familiar to the growing ranks of commuter relationships, or to a relationship of lovers, who see each other only periodically for intense bursts of pleasure. I’m surprised we don’t have any equivalent word for this subset of relationship bliss. It’s a handy one for modern life.

Ilunga (Bantu): A person who is willing to forgive abuse the first time; tolerate it the second time, but never a third time.
Apparently, in 2004, this word won the award as the world’s most difficult to translate. Although at first, I thought it did have a clear phrase equivalent in English: It’s the “three strikes and you’re out” policy. But ilunga conveys a subtler concept, because the feelings are different with each “strike.” The word elegantly conveys the progression toward intolerance, and the different shades of emotion that we feel at each stop along the way.
Ilunga captures what I’ve described as the shade of gray complexity in marriages—Not abusive marriages, but marriages that involve infidelity, for example. We’ve got tolerance, within reason, and we’ve got gradations of tolerance, and for different reasons. And then, we have our limit. The English language to describe this state of limits and tolerance flattens out the complexity into black and white, or binary code. You put up with it, or you don’t. You “stick it out,” or not.
Ilunga restores the gray scale, where many of us at least occasionally find ourselves in relationships, trying to love imperfect people who’ve failed us and whom we ourselves have failed.

La Douleur Exquise (French): The heart-wrenching pain of wanting someone you can’t have.
When I came across this word I thought of “unrequited” love. It’s not quite the same, though. “Unrequited love” describes a relationship state, but not a state of mind. Unrequited love encompasses the lover who isn’t reciprocating, as well as the lover who desires. La douleur exquise gets at the emotional heartache, specifically, of being the one whose love is unreciprocated.

Koi No Yokan (Japanese): The sense upon first meeting a person that the two of you are going to fall into love.
This is different than “love at first sight,” since it implies that you might have a sense of imminent love, somewhere down the road, without yet feeling it. The term captures the intimation of inevitable love in the future, rather than the instant attraction implied by love at first sight.

Ya’aburnee (Arabic): “You bury me.” It’s a declaration of one’s hope that they’ll die before another person, because of how difficult it would be to live without them.
The online dictionary that lists this word calls it “morbid and beautiful.” It’s the “How Could I Live Without You?” slickly insincere cliché of dating, polished into a more earnest, poetic term.

Forelsket (Norwegian): The euphoria you experience when you’re first falling in love.
This is a wonderful term for that blissful state, when all your senses are acute for the beloved, the pins and needles thrill of the novelty. There’s a phrase in English for this, but it’s clunky. It’s “New Relationship Energy,” or NRE.

Saudade (Portuguese): The feeling of longing for someone that you love and is lost. Another linguist describes it as a “vague and constant desire for something that does not and probably cannot exist.”
It’s interesting that saudade accommodates in one word the haunting desire for a lost love, or for an imaginary, impossible, never-to-be-experienced love. Whether the object has been lost or will never exist, it feels the same to the seeker, and leaves her in the same place: She has a desire with no future. Saudade doesn’t distinguish between a ghost, and a fantasy. Nor do our broken hearts, much of the time.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Coração de Tinta

Quando você leva um livro numa viagem”, dissera Mo quando ela pôs o primeiro no baú, “acontece uma coisa estranha: o livro começa a colecionar lembranças. Depois basta abri-lo, e você já está de novo no lugar onde o leu. Tudo volta, já nas primeiras palavras: as imagens, os cheiros, o sorvete que você tomou enquanto lia... Acredite, os livros são como papel pega-moscas. Não existe nada melhor para grudar lembranças do que páginas impressas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Aprendizado

Na calada da noite
Eu choro e me desespero.
Sofrimento amadurece?
Acho que prefiro morrer verde.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O Traidor

O carioca que sai do Rio vai ser sempre apontado como um traidor. É mesmo um desrespeito abandonar tanta beleza, uma ousadia achar que pode haver coisa melhor. Se mudar do Rio pra São Paulo então é caso de pena de morte. É pior que mudar de time, pior que mudar de nome. Falsidade ideológica, daí pra baixo. O primeiro dia que um carioca se sente realmente feliz em São Paulo bate uma culpa sincera. E os amigos que ficaram não ajudam: Como você pode? Logo você que amava a praia, justo você que abria a janela e ficava feliz até de estar parada no trânsito da Lagoa? Até tu?
E desandam a falar da feiúra, da grandeza, dos tons de cinza, dos engarrafamentos, das enchentes, da frieza paulistana. Como é que você foi largar isso aqui? – aponta o carioca para qualquer direção sabendo que sempre vai ter uma montanha ridiculamente bem posicionada, recortando um céu azul e uma beira do mar por perto. Covardia. E é tão difícil entender como explicar.

Mas tento. Amigos: se tem alguém que sabe como o Rio é maravilhoso é quem foi embora. Essa praia dói mais ainda quando não se tem. Voltar pra São Paulo segunda de manhã e deixar o Rio amanhecendo pra trás é de uma violência que eu nem te conto. Todas as fotos de pôr-do-sol no Arpoador me magoam a ponto de querer sair do Instagram. E cada sábado de verão que alguém te chama para uma praia “pertinho, só 3 horas de carro”, cada “vista linda” que o paulista vai te mostrar na maior boa-vontade e que se revela apenas uma visão panorâmica para um monte de prédios – juro: a vontade de chorar não é metafórica.

“Então volta”, seus amigos falam. Fica, insistem: aqui é gostoso, quentinho, seguro. É mesmo tentador. O Rio é um colo de mãe. E os argumentos cariocas pra não se sair do Rio são os mesmos que a sua mãe usou pra você não sair de casa. Porque ir embora, se aqui é tão bom? Você tem tudo o que precisa, casa, comida, roupa lavada. Você não gosta mais da gente?

Sim, Rio, ainda amo você profundamente. Não é você, sou eu. A gente ama os pais mas um dia precisa sair de casa. Eu me mudei de um apartamento gigantesco com vista pro pão de açúcar pra morar num quarto e sala sem elevador com vista para uma parede. Sim, eu amava meus pais, mas eu precisava ter o meu cantinho. São Paulo parece grande, mas se você olhar de perto é só o cantinho de muita gente.

É a chance de começar uma nova história que conquista quem vem pra cá. O Rio já está pronto. São Paulo tem cheiro de cimento, barulho de prédio em construção. De um lado uma montanha de 5 bilhões de anos, de outro um terreno escrito: em breve. É o conforto do estabelecido versus a adrenalina de todas as possibilidades. Tem quem se acanhe diante de tanto desconhecido. Mas pra mim, que aprendi a correr antes de engatinhar, São Paulo é um alívio.

Claro que dá medo sim, dá saudade, sai caro. Tem dias que dá vontade de voltar correndo pra casa da mamãe. E eu volto. De preferência no fim de semana, cheia de saudade. Aí, até as piadas que você não achava graça ficam engraçadíssimas. Quando eu volto pro Rio, acho tudo divertido e bucólico. O serviço ruim não me atrapalha, a impontualidade fica charmosa, as eternas promessas de “passa lá em casa” tem o efeito de um abraço carinhoso.

Mas minha saudade não é o suficiente para os cariocas. “Porque você gosta tanto de lá?”, me perguntam, inconformados. Como toda mãe, o Rio é passional e exagerado. Ele te dá muito, por isso mesmo cobra uma fidelidade polarizada: ou você gosta de mim ou gosta de São Paulo. O Rio é uma mulher deslumbrante que, por isso mesmo, lida muito mal com rejeição.

São Paulo é mais humilde, está acostumada a ser mau tratada. É feia, sim, mas tem espelho em casa. Sabe que não pode sair botando banca. Ela te pega aos poucos, vai comendo pelas beiradas. Conquista primeiro o seu conforto, depois sua simpatia. Quando você se dá conta, não sabe mais viver sem ela.

São Paulo aceita tranquilamente ser “a outra” até porque é a outra cidade de quase todo mundo que mora nela. Aqui, como não podia deixar de ser, aprendi os tons de cinza: não existe só feio e bonito, perto ou longe, verão ou inverno. Todas as estações do ano podem acontecer em um dia e isso dá uma sensação de liberdade danada. Apesar da dureza aparente, São Paulo é muito flexivel.

“Que palhaçada! Liberdade é correr na praia de manhã”, seus amigos vão dizer – e estão certos também. A natureza do Rio te dá o horizonte como limite. Mas a sombra e água fresca causavam em mim certa preguiça de ir até lá. O Rio é uma mãe manipuladora, que manda e desmanda e você nem percebe porque é gostoso receber as ordens dela. “Vá a praia, sorria, coma direito, fica mais um pouquinho, descansa.”
São Paulo não é mãe de ninguém. Nem vem pedir colo que aqui não tem, se vira malandro. O que é que você vai fazer com essa tal liberdade?, já perguntava o pagode paulistano anos atrás. São Paulo impõe muito pouco. Ela vai ser interessante, se você for. É uma relação de parceria, tá longe de ser amor incondicional. No Rio, basta estar ali. Aqui não. Não se vive EM São Paulo, mas COM São Paulo.

Se isto é melhor que aquilo, não dá pra dizer, nem precisa. Fui muito feliz com o Rio mandando em mim por 27 anos. Eu sentia tanta obrigação de ir a praia, que de vez em quando torcia pra estar chovendo só pra eu poder fazer qualquer outra coisa. Só um carioca pode entender esse sentimento.

O Rio é uma linda história com começo, meio e fim e todos viveram felizes para sempre. São Paulo é assunto pra vida toda, é futuro que não acaba mais, final aberto. Se nem o meu GPS consegue dar conta de tanta atualização e novidade, imagina eu.
Quando dá preguiça de ir tão pra frente, eu voo pro Flamengo, pra vista pro mar, pra tudo que eu já conheço. Depois de uma semana volto correndo com saudade do meu anonimato, saudade de ser de fora. Taí mais uma coisa coisa boa que só um exilado pode sentir: o prazer de dizer numa mesa “sim, eu sou carioca” com certo ar de superioridade, sabendo que vai atrair algumas antipatias, mas certamente toda a atenção do mundo.

O carioca se acha sim, e se acha porque é. É um luxo ser do Rio. Nós somos uma grife que eu, pelo menos, uso sem parcimônia, em estampas bem grandes. E o paulista, generoso que só, abre espaço pra toda essa prepotência e gosta da gente. Um paulista vê muito mais graça num carioca do que um carioca vê em outro carioca.
Mas não é esse textinho bobo que vai fazer meus amigos mudarem de ideia e me absolverem. “Quem diria, até a Patricia se vendeu,” eles vão dizer. Carioca não se enrola nem se convence, eu sei bem. Por isso, se você sair do Rio pra morar em São Paulo, já vai sabendo: você será sempre considerado um traidor. Mas, talvez pra aliviar a culpa que ainda sinto, peço clemência ao júri: traidor não, vai. No máximo me deixa ser condenada por bigamia: sou capaz de ter dois amores profundos ao mesmo tempo.