Na calada da noite
Eu choro e me desespero.
Sofrimento amadurece?
Acho que prefiro morrer verde.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
O Traidor
O carioca que sai do Rio vai ser sempre apontado como um traidor. É mesmo um desrespeito abandonar tanta beleza, uma ousadia achar que pode haver coisa melhor. Se mudar do Rio pra São Paulo então é caso de pena de morte. É pior que mudar de time, pior que mudar de nome. Falsidade ideológica, daí pra baixo. O primeiro dia que um carioca se sente realmente feliz em São Paulo bate uma culpa sincera. E os amigos que ficaram não ajudam: Como você pode? Logo você que amava a praia, justo você que abria a janela e ficava feliz até de estar parada no trânsito da Lagoa? Até tu?
E desandam a falar da feiúra, da grandeza, dos tons de cinza, dos engarrafamentos, das enchentes, da frieza paulistana. Como é que você foi largar isso aqui? – aponta o carioca para qualquer direção sabendo que sempre vai ter uma montanha ridiculamente bem posicionada, recortando um céu azul e uma beira do mar por perto. Covardia. E é tão difícil entender como explicar.
Mas tento. Amigos: se tem alguém que sabe como o Rio é maravilhoso é quem foi embora. Essa praia dói mais ainda quando não se tem. Voltar pra São Paulo segunda de manhã e deixar o Rio amanhecendo pra trás é de uma violência que eu nem te conto. Todas as fotos de pôr-do-sol no Arpoador me magoam a ponto de querer sair do Instagram. E cada sábado de verão que alguém te chama para uma praia “pertinho, só 3 horas de carro”, cada “vista linda” que o paulista vai te mostrar na maior boa-vontade e que se revela apenas uma visão panorâmica para um monte de prédios – juro: a vontade de chorar não é metafórica.
“Então volta”, seus amigos falam. Fica, insistem: aqui é gostoso, quentinho, seguro. É mesmo tentador. O Rio é um colo de mãe. E os argumentos cariocas pra não se sair do Rio são os mesmos que a sua mãe usou pra você não sair de casa. Porque ir embora, se aqui é tão bom? Você tem tudo o que precisa, casa, comida, roupa lavada. Você não gosta mais da gente?
Sim, Rio, ainda amo você profundamente. Não é você, sou eu. A gente ama os pais mas um dia precisa sair de casa. Eu me mudei de um apartamento gigantesco com vista pro pão de açúcar pra morar num quarto e sala sem elevador com vista para uma parede. Sim, eu amava meus pais, mas eu precisava ter o meu cantinho. São Paulo parece grande, mas se você olhar de perto é só o cantinho de muita gente.
É a chance de começar uma nova história que conquista quem vem pra cá. O Rio já está pronto. São Paulo tem cheiro de cimento, barulho de prédio em construção. De um lado uma montanha de 5 bilhões de anos, de outro um terreno escrito: em breve. É o conforto do estabelecido versus a adrenalina de todas as possibilidades. Tem quem se acanhe diante de tanto desconhecido. Mas pra mim, que aprendi a correr antes de engatinhar, São Paulo é um alívio.
Claro que dá medo sim, dá saudade, sai caro. Tem dias que dá vontade de voltar correndo pra casa da mamãe. E eu volto. De preferência no fim de semana, cheia de saudade. Aí, até as piadas que você não achava graça ficam engraçadíssimas. Quando eu volto pro Rio, acho tudo divertido e bucólico. O serviço ruim não me atrapalha, a impontualidade fica charmosa, as eternas promessas de “passa lá em casa” tem o efeito de um abraço carinhoso.
Mas minha saudade não é o suficiente para os cariocas. “Porque você gosta tanto de lá?”, me perguntam, inconformados. Como toda mãe, o Rio é passional e exagerado. Ele te dá muito, por isso mesmo cobra uma fidelidade polarizada: ou você gosta de mim ou gosta de São Paulo. O Rio é uma mulher deslumbrante que, por isso mesmo, lida muito mal com rejeição.
São Paulo é mais humilde, está acostumada a ser mau tratada. É feia, sim, mas tem espelho em casa. Sabe que não pode sair botando banca. Ela te pega aos poucos, vai comendo pelas beiradas. Conquista primeiro o seu conforto, depois sua simpatia. Quando você se dá conta, não sabe mais viver sem ela.
São Paulo aceita tranquilamente ser “a outra” até porque é a outra cidade de quase todo mundo que mora nela. Aqui, como não podia deixar de ser, aprendi os tons de cinza: não existe só feio e bonito, perto ou longe, verão ou inverno. Todas as estações do ano podem acontecer em um dia e isso dá uma sensação de liberdade danada. Apesar da dureza aparente, São Paulo é muito flexivel.
“Que palhaçada! Liberdade é correr na praia de manhã”, seus amigos vão dizer – e estão certos também. A natureza do Rio te dá o horizonte como limite. Mas a sombra e água fresca causavam em mim certa preguiça de ir até lá. O Rio é uma mãe manipuladora, que manda e desmanda e você nem percebe porque é gostoso receber as ordens dela. “Vá a praia, sorria, coma direito, fica mais um pouquinho, descansa.”
São Paulo não é mãe de ninguém. Nem vem pedir colo que aqui não tem, se vira malandro. O que é que você vai fazer com essa tal liberdade?, já perguntava o pagode paulistano anos atrás. São Paulo impõe muito pouco. Ela vai ser interessante, se você for. É uma relação de parceria, tá longe de ser amor incondicional. No Rio, basta estar ali. Aqui não. Não se vive EM São Paulo, mas COM São Paulo.
Se isto é melhor que aquilo, não dá pra dizer, nem precisa. Fui muito feliz com o Rio mandando em mim por 27 anos. Eu sentia tanta obrigação de ir a praia, que de vez em quando torcia pra estar chovendo só pra eu poder fazer qualquer outra coisa. Só um carioca pode entender esse sentimento.
O Rio é uma linda história com começo, meio e fim e todos viveram felizes para sempre. São Paulo é assunto pra vida toda, é futuro que não acaba mais, final aberto. Se nem o meu GPS consegue dar conta de tanta atualização e novidade, imagina eu.
Quando dá preguiça de ir tão pra frente, eu voo pro Flamengo, pra vista pro mar, pra tudo que eu já conheço. Depois de uma semana volto correndo com saudade do meu anonimato, saudade de ser de fora. Taí mais uma coisa coisa boa que só um exilado pode sentir: o prazer de dizer numa mesa “sim, eu sou carioca” com certo ar de superioridade, sabendo que vai atrair algumas antipatias, mas certamente toda a atenção do mundo.
O carioca se acha sim, e se acha porque é. É um luxo ser do Rio. Nós somos uma grife que eu, pelo menos, uso sem parcimônia, em estampas bem grandes. E o paulista, generoso que só, abre espaço pra toda essa prepotência e gosta da gente. Um paulista vê muito mais graça num carioca do que um carioca vê em outro carioca.
Mas não é esse textinho bobo que vai fazer meus amigos mudarem de ideia e me absolverem. “Quem diria, até a Patricia se vendeu,” eles vão dizer. Carioca não se enrola nem se convence, eu sei bem. Por isso, se você sair do Rio pra morar em São Paulo, já vai sabendo: você será sempre considerado um traidor. Mas, talvez pra aliviar a culpa que ainda sinto, peço clemência ao júri: traidor não, vai. No máximo me deixa ser condenada por bigamia: sou capaz de ter dois amores profundos ao mesmo tempo.
E desandam a falar da feiúra, da grandeza, dos tons de cinza, dos engarrafamentos, das enchentes, da frieza paulistana. Como é que você foi largar isso aqui? – aponta o carioca para qualquer direção sabendo que sempre vai ter uma montanha ridiculamente bem posicionada, recortando um céu azul e uma beira do mar por perto. Covardia. E é tão difícil entender como explicar.
Mas tento. Amigos: se tem alguém que sabe como o Rio é maravilhoso é quem foi embora. Essa praia dói mais ainda quando não se tem. Voltar pra São Paulo segunda de manhã e deixar o Rio amanhecendo pra trás é de uma violência que eu nem te conto. Todas as fotos de pôr-do-sol no Arpoador me magoam a ponto de querer sair do Instagram. E cada sábado de verão que alguém te chama para uma praia “pertinho, só 3 horas de carro”, cada “vista linda” que o paulista vai te mostrar na maior boa-vontade e que se revela apenas uma visão panorâmica para um monte de prédios – juro: a vontade de chorar não é metafórica.
“Então volta”, seus amigos falam. Fica, insistem: aqui é gostoso, quentinho, seguro. É mesmo tentador. O Rio é um colo de mãe. E os argumentos cariocas pra não se sair do Rio são os mesmos que a sua mãe usou pra você não sair de casa. Porque ir embora, se aqui é tão bom? Você tem tudo o que precisa, casa, comida, roupa lavada. Você não gosta mais da gente?
Sim, Rio, ainda amo você profundamente. Não é você, sou eu. A gente ama os pais mas um dia precisa sair de casa. Eu me mudei de um apartamento gigantesco com vista pro pão de açúcar pra morar num quarto e sala sem elevador com vista para uma parede. Sim, eu amava meus pais, mas eu precisava ter o meu cantinho. São Paulo parece grande, mas se você olhar de perto é só o cantinho de muita gente.
É a chance de começar uma nova história que conquista quem vem pra cá. O Rio já está pronto. São Paulo tem cheiro de cimento, barulho de prédio em construção. De um lado uma montanha de 5 bilhões de anos, de outro um terreno escrito: em breve. É o conforto do estabelecido versus a adrenalina de todas as possibilidades. Tem quem se acanhe diante de tanto desconhecido. Mas pra mim, que aprendi a correr antes de engatinhar, São Paulo é um alívio.
Claro que dá medo sim, dá saudade, sai caro. Tem dias que dá vontade de voltar correndo pra casa da mamãe. E eu volto. De preferência no fim de semana, cheia de saudade. Aí, até as piadas que você não achava graça ficam engraçadíssimas. Quando eu volto pro Rio, acho tudo divertido e bucólico. O serviço ruim não me atrapalha, a impontualidade fica charmosa, as eternas promessas de “passa lá em casa” tem o efeito de um abraço carinhoso.
Mas minha saudade não é o suficiente para os cariocas. “Porque você gosta tanto de lá?”, me perguntam, inconformados. Como toda mãe, o Rio é passional e exagerado. Ele te dá muito, por isso mesmo cobra uma fidelidade polarizada: ou você gosta de mim ou gosta de São Paulo. O Rio é uma mulher deslumbrante que, por isso mesmo, lida muito mal com rejeição.
São Paulo é mais humilde, está acostumada a ser mau tratada. É feia, sim, mas tem espelho em casa. Sabe que não pode sair botando banca. Ela te pega aos poucos, vai comendo pelas beiradas. Conquista primeiro o seu conforto, depois sua simpatia. Quando você se dá conta, não sabe mais viver sem ela.
São Paulo aceita tranquilamente ser “a outra” até porque é a outra cidade de quase todo mundo que mora nela. Aqui, como não podia deixar de ser, aprendi os tons de cinza: não existe só feio e bonito, perto ou longe, verão ou inverno. Todas as estações do ano podem acontecer em um dia e isso dá uma sensação de liberdade danada. Apesar da dureza aparente, São Paulo é muito flexivel.
“Que palhaçada! Liberdade é correr na praia de manhã”, seus amigos vão dizer – e estão certos também. A natureza do Rio te dá o horizonte como limite. Mas a sombra e água fresca causavam em mim certa preguiça de ir até lá. O Rio é uma mãe manipuladora, que manda e desmanda e você nem percebe porque é gostoso receber as ordens dela. “Vá a praia, sorria, coma direito, fica mais um pouquinho, descansa.”
São Paulo não é mãe de ninguém. Nem vem pedir colo que aqui não tem, se vira malandro. O que é que você vai fazer com essa tal liberdade?, já perguntava o pagode paulistano anos atrás. São Paulo impõe muito pouco. Ela vai ser interessante, se você for. É uma relação de parceria, tá longe de ser amor incondicional. No Rio, basta estar ali. Aqui não. Não se vive EM São Paulo, mas COM São Paulo.
Se isto é melhor que aquilo, não dá pra dizer, nem precisa. Fui muito feliz com o Rio mandando em mim por 27 anos. Eu sentia tanta obrigação de ir a praia, que de vez em quando torcia pra estar chovendo só pra eu poder fazer qualquer outra coisa. Só um carioca pode entender esse sentimento.
O Rio é uma linda história com começo, meio e fim e todos viveram felizes para sempre. São Paulo é assunto pra vida toda, é futuro que não acaba mais, final aberto. Se nem o meu GPS consegue dar conta de tanta atualização e novidade, imagina eu.
Quando dá preguiça de ir tão pra frente, eu voo pro Flamengo, pra vista pro mar, pra tudo que eu já conheço. Depois de uma semana volto correndo com saudade do meu anonimato, saudade de ser de fora. Taí mais uma coisa coisa boa que só um exilado pode sentir: o prazer de dizer numa mesa “sim, eu sou carioca” com certo ar de superioridade, sabendo que vai atrair algumas antipatias, mas certamente toda a atenção do mundo.
O carioca se acha sim, e se acha porque é. É um luxo ser do Rio. Nós somos uma grife que eu, pelo menos, uso sem parcimônia, em estampas bem grandes. E o paulista, generoso que só, abre espaço pra toda essa prepotência e gosta da gente. Um paulista vê muito mais graça num carioca do que um carioca vê em outro carioca.
Mas não é esse textinho bobo que vai fazer meus amigos mudarem de ideia e me absolverem. “Quem diria, até a Patricia se vendeu,” eles vão dizer. Carioca não se enrola nem se convence, eu sei bem. Por isso, se você sair do Rio pra morar em São Paulo, já vai sabendo: você será sempre considerado um traidor. Mas, talvez pra aliviar a culpa que ainda sinto, peço clemência ao júri: traidor não, vai. No máximo me deixa ser condenada por bigamia: sou capaz de ter dois amores profundos ao mesmo tempo.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Citação
Tenho duas canetas em minha mesa. Uma é para mandar o governo para o inferno, a outra é para contar histórias. São esferas diferentes para mim, a de contar e a de afirmar. Quando eu concordo cem por cento comigo mesmo, escrevo um artigo. Quando ouço mais de uma voz dentro de mim, quando vejo mais de um ponto de vista válido, é aí que estou grávido de uma história.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
A invenção da solidão
Num dia, estamos vivos. Por exemplo, um homem totalmente saudável, relativamente jovem, sem histórico de doença. Para ele, as coisas são como são, como serão para sempre. Vive um dia após o outro, resolvendo seus problemas, pensando no que fará amanhã. E, então, de repente, sua morte chega. O homem dá um suspiro e cai da cadeira, morto. A surpresa da morte não deixa espaço para pensamentos, não permite que encontremos palavras para confortá-la. Somos deixados com o irredutível fato de nossa mortalidade, nada mais. Podemo-nos resignar com a morte depois de uma longa doença. Podemos culpar o destino na morte por acidente. Mas a morte sem causa aparente, apenas porque somos humanos, traz-nos tão perto da fronteira invisível entre a vida e a morte que já não sabemos mais de que lado estamos. A vida se torna morte, e é como se a morte houvesse possuído a vida durante todo o tempo. A morte súbita significa que a vida acaba. E pode acabar a qualquer momento.
domingo, 25 de setembro de 2011
Limited
“I can never read all the books I want; I can never be all the people I want and live all the lives I want. I can never train myself in all the skills I want. And why do I want? I want to live and feel all the shades, tones and variations of mental and physical experience possible in life. And I am horribly limited.”
sábado, 27 de agosto de 2011
Metamorfose
Quando Gregório Souza acordou certa manhã de uma noite mal dormida cheia de sonhos perturbadores, olhou seus pés que emergiam da outra extremidade da coberta curta e viu que tinha se transformado em Franz Kafka. Na verdade, levou algum tempo para descobrir quem era. Começou certificando-se que aqueles pés, decididamente, não eram os dele. Examinou-os com interesse e deduziu que eram pés da Europa Central, possivelmente checos. Mas só quando sua mãe entrou no quarto e ele respondeu ao seu “bom-dia!” em checo, espantando-se tanto quanto a ela, deu-se conta de quem era.
Não sabia explicar como acontecera aquilo. Não só ele era Kafka como toda a situação era puro Kafka. Sua mãe gritando, perguntando quem ele era e o que estava fazendo na cama do seu filho – pelo menos ele imaginava que era isto que ela dizia, pois não conseguia entendê-la – e ele, apalpando-se, ao mesmo tempo assustado e maravilhado, eu Franz Kafka!
Levantou-se da cama e foi se olhar no espelho, enquanto sua mãe corria do quarto para chamar seu pai, que chamou a polícia, que veio e cercou o prédio errado, causando uma enorme confusão no trânsito e ferimentos a bala em três pessoas, e viu que era mesmo Franz Kafka, com as olheiras e tudo. Foi preso. Tentou inutilmente se comunicar com os policiais mas nenhum falava checo ou alemão. Tentaram levá-lo para a delegacia no carro da polícia, mas nada se mexia no trânsito engarrafado e um camelô meteu a cabeça para dentro do carro e ofereceu “Saquinho de limão, doutor? Limpador de pára-brisa? Assistência legal?”, que Kafka aceitou, tanto que quando os policiais decidiram bater nele ali mesmo e jogá-lo na calçada foi seu advogado que o levou a um hospital, onde ele esperou uma hora na fila de um guichê só para dizer se era conveniado ou se era pelo SUS.
Em seguida, foram à repartição competente para regularizar sua situação como estrangeiro no país e quando Kafka indicou, com gestos, que não tinha dinheiro para pagar seus serviços, já que a carteira de Gregório Souza estava vazia, o advogado sorriu, levantou a palma da mão e disse “Xacomigo”.
Com a situação de Kafka regularizada por meio de uma propina e um documento de identidade provisório para seu cliente comprado de outro camelô, o advogado daria entrada com um pedido de pensão da Previdência Social, pois o fato de ter-se transformado em checo da noite para o dia o abalara psiquicamente, e os dois ganhariam uma fortuna, ainda mais que o advogado tinha um cúmplice na previdência que acrescentava zeros às guias de pagamento, quanto zeros se quisesse. A todas estas Kafka tomava notas, maravilhado.
Em casa, Kafka conseguiu acalmar os pais de Gregório e, com paciência, recorrendo a algumas palavras em inglês que sabia, explicou o que tinha acontecido. Para sua sorte – e para a sua surpresa, pois antes de morrer dera ordens para que toda sua obra fosse queimada – havia um livro de Kafka numa prateleira do quarto de Gregório, com sua fotografia na capa, e os pais acabaram compreendendo que aquilo tudo era um tipo de acontecimento literário, talvez uma parábola, e que Gregório não corria perigo, salvo o de perder seu emprego na companhia de seguros.
Adotaram o filho substituto. E com sua situação doméstica resolvida, o português que aprendeu ouvindo as novelas e lendo as traduções dos seus próprios livros e o dinheiro que o advogado conseguiu da Previdência – R$ 500 milhões – Kafka se sentiu em condições de recomeçar a carreira literária interrompida com sua morte. Comprou um computador e preparou-se para escrever o seu primeiro livro brasileiro, apenas duvidando que estivesse à altura da tarefa.
Não sabia explicar como acontecera aquilo. Não só ele era Kafka como toda a situação era puro Kafka. Sua mãe gritando, perguntando quem ele era e o que estava fazendo na cama do seu filho – pelo menos ele imaginava que era isto que ela dizia, pois não conseguia entendê-la – e ele, apalpando-se, ao mesmo tempo assustado e maravilhado, eu Franz Kafka!
Levantou-se da cama e foi se olhar no espelho, enquanto sua mãe corria do quarto para chamar seu pai, que chamou a polícia, que veio e cercou o prédio errado, causando uma enorme confusão no trânsito e ferimentos a bala em três pessoas, e viu que era mesmo Franz Kafka, com as olheiras e tudo. Foi preso. Tentou inutilmente se comunicar com os policiais mas nenhum falava checo ou alemão. Tentaram levá-lo para a delegacia no carro da polícia, mas nada se mexia no trânsito engarrafado e um camelô meteu a cabeça para dentro do carro e ofereceu “Saquinho de limão, doutor? Limpador de pára-brisa? Assistência legal?”, que Kafka aceitou, tanto que quando os policiais decidiram bater nele ali mesmo e jogá-lo na calçada foi seu advogado que o levou a um hospital, onde ele esperou uma hora na fila de um guichê só para dizer se era conveniado ou se era pelo SUS.
Em seguida, foram à repartição competente para regularizar sua situação como estrangeiro no país e quando Kafka indicou, com gestos, que não tinha dinheiro para pagar seus serviços, já que a carteira de Gregório Souza estava vazia, o advogado sorriu, levantou a palma da mão e disse “Xacomigo”.
Com a situação de Kafka regularizada por meio de uma propina e um documento de identidade provisório para seu cliente comprado de outro camelô, o advogado daria entrada com um pedido de pensão da Previdência Social, pois o fato de ter-se transformado em checo da noite para o dia o abalara psiquicamente, e os dois ganhariam uma fortuna, ainda mais que o advogado tinha um cúmplice na previdência que acrescentava zeros às guias de pagamento, quanto zeros se quisesse. A todas estas Kafka tomava notas, maravilhado.
Em casa, Kafka conseguiu acalmar os pais de Gregório e, com paciência, recorrendo a algumas palavras em inglês que sabia, explicou o que tinha acontecido. Para sua sorte – e para a sua surpresa, pois antes de morrer dera ordens para que toda sua obra fosse queimada – havia um livro de Kafka numa prateleira do quarto de Gregório, com sua fotografia na capa, e os pais acabaram compreendendo que aquilo tudo era um tipo de acontecimento literário, talvez uma parábola, e que Gregório não corria perigo, salvo o de perder seu emprego na companhia de seguros.
Adotaram o filho substituto. E com sua situação doméstica resolvida, o português que aprendeu ouvindo as novelas e lendo as traduções dos seus próprios livros e o dinheiro que o advogado conseguiu da Previdência – R$ 500 milhões – Kafka se sentiu em condições de recomeçar a carreira literária interrompida com sua morte. Comprou um computador e preparou-se para escrever o seu primeiro livro brasileiro, apenas duvidando que estivesse à altura da tarefa.
sábado, 6 de agosto de 2011
Infinito e Finito
O século XIX prosseguiu uma tradição filosófica que veio desde a Antigüidade e que foi muito alimentada pelo pensamento cristão. Nessa tradição, o mais importante sempre foi a idéia do infinito, isto é, da Natureza eterna (dos gregos), do Deus eterno (dos cristãos), do desenvolvimento pleno e total da História ou do tempo como totalização de todos os seus momentos ou suas etapas. Prevalecia a idéia de todo ou de totalidade, da qual os humanos fazem parte e na qual os humanos participam.
No entanto, a Filosofia do século XX tendeu a dar maior importância ao finito, isto é, ao que surge e desaparece, ao que tem fronteiras e limites. Esse interesse pelo finito aparece, por exemplo, numa corrente filosófica (entre os anos 30 e 50) chamada existencialismo e que definiu o humano ou o homem como “um ser para a morte”, isto é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar em si mesmo o sentido de sua existência.
Para a maioria dos existencialistas, dois eram os modos privilegiados de o homem aceitar e enfrentar sua finitude: através das artes e através da ação político-revolucionária. Nessas formas excepcionais da atividade, os humanos seriam capazes de dar sentido à brevidade e finitude de suas vidas.
No entanto, a Filosofia do século XX tendeu a dar maior importância ao finito, isto é, ao que surge e desaparece, ao que tem fronteiras e limites. Esse interesse pelo finito aparece, por exemplo, numa corrente filosófica (entre os anos 30 e 50) chamada existencialismo e que definiu o humano ou o homem como “um ser para a morte”, isto é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar em si mesmo o sentido de sua existência.
Para a maioria dos existencialistas, dois eram os modos privilegiados de o homem aceitar e enfrentar sua finitude: através das artes e através da ação político-revolucionária. Nessas formas excepcionais da atividade, os humanos seriam capazes de dar sentido à brevidade e finitude de suas vidas.
sábado, 21 de maio de 2011
Os Ninguéns
As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte , por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Oco
Você lamenta que nada tenha dado certo entre nós, diz que nunca amou ninguém igual, que ainda sente muito minha falta e me imagina ao seu lado até hoje, dividindo o pouco que a vida lhe dá (um filhote de cachorro, um copo de vinho, um cd novo). Besteira lamentar, amor também é buraco e o nosso nasceu com essa vocação. E buraco é bonito também. E vai ficando mais bonito à medida que envelhece, mais bonito e mais fundo. Vista o seu que eu visto o meu.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Garotas
"seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido",
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido",
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
domingo, 21 de novembro de 2010
A História Completa de Ritinha
Ritinha fingiu a vida inteira mas nunca deixou de procurar a verdade. Sempre uma tosse de angústia na boca do peito. Sempre um motorzinho acelerado enjoado lá pro meio de algo que fica dentro. O olho ardia. A língua travava de vontade de mudar todo o discurso pronto e dizer apenas a verdade. Mas qual era a verdade? Então seguia fingindo. A vida inteira. Estudou um monte de coisa que se embaralhava na sua frente, mas fingia acreditar que aquilo a levaria para algum lugar. Um lugar com novos amigos e novos amores, talvez. Talvez essa fosse a verdade que purificaria tanta coisa sem sentido. Mas também não era isso porque, com esses amigos e amores, Ritinha seguia fingindo. De fingir estudar passou em tudo que fingiu se importar. De fingir curtir as festas e os amigos e aquilo tudo, Ritinha vivia em álbuns felizes e acabava feliz. De fingir amar, acabou chorando e doendo e escrevendo tantas coisas bonitas. Ritinha seguia fingindo o tempo todo. Às vezes, com medo de morrer soterrada por tanto teatro, Ritinha segurava firme no fundo dos olhos de alguém e dizia: a verdade é que, a verdade é que. E a pessoa, caso fosse assim como Ritinha, uma pessoa especial (porque quem procura essa verdade sempre é) só dizia: eu sei, eu sei. E era isso. Um momento especial, de verdade, sem a bola de pêlo presa na goela. Sem a tosse de angústia, tentando soltar algo pro ar entrar. Mas que algo? Mas que tosse? Então Ritinha ia ao psiquiatra e dizia não entender todas essas coisas como nuvens e casamentos e rodas fedorentas de caminhões bafando quente e infernal e abajures e cartões fidelidade e apostilas e tudo isso que acaba acontecendo porque acontece com todo mundo. Mas pra quem? Por quê? Qual é a verdade? Todos caminhando, todos com horários, todos de volta, cansados, o cérebro já bem gasto, agora podemos dormir, ufa, podemos dormir, pra quê? Pra amanhã mais e mais. E Ritinha ia. Como na hora do rush do metrô. Empurrada pela multidão sem verdade pra dentro de algo que leva pra algo. Pra onde? Eles precisam pagar as contas, eles precisam pagar o plano de saúde, diria sua mãe. Tá, e daí? Ter um problema sério nos ocupa de não ter o problema real. O problema real é que não dá pra calar a cabeça procurando a verdade. Que verdade? Quem inventou as nuvens? Porque as rodas de caminhões soltando fumaças quentes lembram tanto o inferno? E quem disse que a roda solta alguma coisa? Onde está a saída daqui? O tempo todo essa pergunta: onde está a saída daqui? Qual o caminho mais rápido para a minha cama, o silêncio, o escuro. Ritinha abraça as pernas, como criança, e se diz baixinho: não dá pra saber a verdade, não dá pra parar a cabeça, nada parece realmente o que é, hoje eu não disse o que realmente queria, aquelas pessoas não sentem aquilo que demonstram, eu pouco me importo com 70% dos preenchimentos do meu dia, mas é preciso chegar até amanhã. É preciso chegar. Ritinha se formou, trabalhou, namorou, viajou, casou, teve filhos, escolheu vestidos, escolheu pisos, escolheu tacos, escolheu flores, escolheu travesseiros, escolheu máquinas de lavar, escolheu o nome do neto, escolheu fazer a cirurgia, escolheu o sapato baixo, escolheu ver a novela ao invés do filme, escolheu dormir até mais tarde no dia que a empregada chegava mais cedo. Sem saber a verdade, Ritinha escolheu viver. No último segundo, até porque prometi que essa era a história completa de Ritinha, Ritinha descobriu algo que nunca mais poderá contar a ninguém. Só o que sabemos é que, em sua última sugestão do que seria a verdade, ela sorriu como sorrimos para um bebê quando ele se levanta bem compenetrado depois de desabar.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Trilogia Suja de Havana
"Eu era então um sujeito perseguido pela saudade. Sempre fora, e não sabia como me desligar da saudade e viver tranquilamente. Ainda não aprendi. E desconfio que não aprenderei nunca. Pelo menos já sei algo valioso: é impossível me desligar da saudade porque é impossível me desligar da memória. É impossível se desligar daquilo que se amou. Tudo isso estará sempre junto conosco. Sempre teremos tanto o desejo de refazer o bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau. Apagar as maldades que cometemos, desfazer a recordação das pessoas que nos prejudicaram, remover as tristezas e as épocas de infelicidade. É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez, para a nossa sorte, a saudade possa transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa que nos dispare para o novo, para entre entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro
tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. E isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de nossa fatia da festa."
tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. E isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de nossa fatia da festa."
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