Se a solidão é inevitável, o melhor a fazer é relaxar e usufruí-la. Pra que ficar remando contra a maré? Além do mais, quem decretou que a melhor forma de viver é de mãos dadas com alguém pela estrada a fora? Do jeito que as coisas andam, parece que estar sozinho é ser portador de um defeito grave. Grave e contagioso.
Eu sou destas mulheres que você já cansou de ver por aí no hall do cinema sozinha, viajando sozinha, comendo sozinha num restaurante. Nunca deixei de fazer nada na vida por não ter companhia. Nada mesmo. A única coisa chata é o olhar de piedade que as pessoas te lançam. “Coitada”. O que elas não sabem é que ali pode estar alguém que é dona do próprio nariz, que só faz o que quer, na hora que quer, do jeito que quer. Isso tem preço? Muitas vezes sou eu quem passa mal ao ver os casais ao redor. Duas alianças cercadas por uma úlcera.
Eu tenho muitas amigas casadíssimas que dariam tudo pra levar a vida que eu levo: livre, barriguda e feliz, mas morrem de medo da solidão.
Batalhei muito até aprender a não colocar meu bem-estar na dependência de um possível companheiro e isso fez de mim uma pessoa melhor. A ansiedade diminuiu, eu parei de sufocar as pessoas e (pasmem) meus amigos aumentaram em gênero, número e qualidade.
Claro que ninguém planeja ficar sozinho. Acontece. E é ótimo quando não se sofre por isso. A solidão é uma roupa pra lá de confortável se você veste sem medo.
Há um tempo atrás, minha filha foi morar com um rapaz. Em casa, ficamos só eu e a Princesa, minha cachorrinha. No começo estranhei o silêncio, o telefone desocupado, o orçamento doméstico visivelmente deflacionado. Me lambuzei do mel que eu nunca tinha provado. Mas os casamentos duram pouco hoje em dia. Depois de um ano e meio, eis que ela volta de mala e cuia. Hoje nós moramos juntas de novo, e assim será até que ela arranje um emprego que lhe permita cuidar da própria vida (está desempregada, a pobre), ou um marido que a faça feliz. Sim, porque o sonho da minha filha é casar e ser feliz para sempre. Quando isto acontecer, eu ficarei ainda mais só: a Princesa morreu na semana passada.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Frágil
Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Pretty Often
I felt like crying but nothing came out. it was just a sort of sad sickness, sick sad, when you can’t feel any worse. I think you know it. I think everybody knows it now and then. but I think I have known it pretty often, too often.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Calvário
E por ter sofrido tanto
e tão desesperadamente,
e por ter ficado tanto
tanto tempo
aqui sozinha,
e por ter esperado tanto
pelos beijos teus,
quando te encontro
machuco tua carne dura
com socos, mordidas e pontapés
pra que sofras um pouco por mim também.
Depois durmo
morta de medo
que este amor
não me acorde mais.
e tão desesperadamente,
e por ter ficado tanto
tanto tempo
aqui sozinha,
e por ter esperado tanto
pelos beijos teus,
quando te encontro
machuco tua carne dura
com socos, mordidas e pontapés
pra que sofras um pouco por mim também.
Depois durmo
morta de medo
que este amor
não me acorde mais.
terça-feira, 16 de março de 2010
Fraturas Expostas
Cada vez mais percebo algo em comum nos grandes livros que aprecio: eles têm grandes erros, falhas enormes, fraturas expostas. Quase sempre, existe um abismo entre as intenções e as realizações do autor. A grandeza literária geralmente nasce dessa tensão: é como se um livro, para ser realmente grande, tivesse que possuir em si o seu próprio contra-discurso, a própria semente da sua destruição, o seu contra-argumento perfeito.
domingo, 7 de março de 2010
Bom-tom
Não sou modesto em relação ao que eu faço como artista. Mas, sobre os rumos ou possibilidades do país, não vejo honestamente que contribuição eu possa dar. O que eu posso fazer é só constatar minhas perplexidades, meus receios diante desse quadro cada vez mais assustador. Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes.
Ser reacionário virou de bom-tom. No meu tempo, as moças bonitas eram de esquerda, hoje são de direita. (risos)
Ser reacionário virou de bom-tom. No meu tempo, as moças bonitas eram de esquerda, hoje são de direita. (risos)
Ipanhonha?
Morro de saudades. Acordo de madrugada e fico vagando pela casa, tomando café e fumando com aquele sentimento esquisito de lack of rabanadas. Recebi tua carta hoje de manhã, agora mesmo, às nove horas, e faz um dia lindo. Aquele frio lá fora, o céu azul transparente mostra que a poluição diminuiu bastante... Para mim seis degraus centígrados é frio à beça. Corro para dentro e ligo o heat na toda, no clima supertropical de Ipanamo. Mas o ar fica seco, racha-violão. Só mesmo no banheiro, com o chuveiro quente ligado, nu, de camisa de meia, na umidade das nuvens de vapor quente, fazendo uma infinita barba, com aparelho, pincel e muita espuma e respuma, gilete nova, desligado, num mundo sem problemas, só fico assim mais como Ipanerma, Ipanoma, Ipaderma, Ipanonha, Aipinina, Ipatonha... Ipanhonha?
Bluebird
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
Estupor
Esse súbito não ter
Esse estúpido querer
Que me leva a duvidar
Quando eu devia crer
Esse sentir-se cair
Quando não existe lugar
Aonde se possa ir
Esse pegar ou largar
Essa poesia vulgar
Que não me deixa mentir
Esse estúpido querer
Que me leva a duvidar
Quando eu devia crer
Esse sentir-se cair
Quando não existe lugar
Aonde se possa ir
Esse pegar ou largar
Essa poesia vulgar
Que não me deixa mentir
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Você é
Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra.
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.
Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.
Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.
Assinar:
Postagens (Atom)
